Una extranjera

“1 semana para começar as aulas.
5 meses para terminar as aulas.
E um sem-número de números que virão entre a segunda e a terceira frase” (2 de março de 2009)

O “sem-número” acabou sendo maior do que pude imaginar. Um sem-número de aprendizados, de momentos de festa, de novos olhares, de novos conhecimentos e, principalmente, de novos amigos. Estes últimos fizeram tudo valer a pena.

Agora levo um coração dividido. Feliz por estar aqui, mas querendo estar com eles novamente. Saudade desse tempo que foi tão único para nós, numa circunstância que jamais acontecerá novamente.

Mas estaremos sempre juntos. Juntos nessa saudade e estando presente da forma que for possível. Porque que o conhecemos um do outro, o que compartilhamos, não permite mais distâncias. Há, sim, coisas que não acabam.

A coordenadora falou sobre a experiencia de viver em outro país, destacando o fato que não só conheceremos melhor o outro, mas também a nós mesmos. (23 de março de 2009)

Nao tinha idéia da verdade que isso se tornaria dois meses depois. Realmente, muitas vezes é preciso ser estrangeira para entender o que nos é próprio. A coordenadora também havia dito que intercâmbio deveria ser um direito de todos, já que é algo que proporciona tanto a quem o faz.
A essa altura da vida já nao tinha mais aquelas expectativas adolescentes de que viver em um país modifica sua percepçao de si mesmo e de mundo. Tinha objetivos mais práticos, como a consolidaçao da língua espanhola, estudos acadêmicos em geral e consequentemente, um upgrade no currículo. Nao esperava transforaçoes, epifanias ou revelaçoes. Apenas conhecimento linguístico e academico.
Mas elas vieram. E que bom que chegam – así de golpe – mesmo quando nao esperamos.
Agora compartilho da idéia de que todos deveriam morar fora de seu país por um tempo e em qualquer momento da vida. Sempre há algo a entender que nos acomodamos a deixar no fundo da gaveta. Trazê-los à tona nao significa sofrer, pelo menos para mim nao. Provavelmente porque estou em um momento de muita segurança do que eu sou, do que quero e do que posso fazer. Estou só com o lado bom. Nem a saudade que sinto das pessoas está me fazendo sofrer. E está aí meu maior prêmio: conseguir mudar – dentro e fora, de lugar, de visao, de língua, de vida – sem sofrer.

En frente al Rosedal, Buenos Aires

“I’m taking a ride off to one side
It is a personal thing.
Where?
When I can’t stand
Up in this cage I’m not regretting.

I don’t need a better thing,
I’d settle for less,
It’s another thing for me,
I just have to wander through this world
Alone.”
(Peter Yorn)

Tags:

24 de março é feriado na Argentina. Nesta data, em 1976, o país sofreu o golpe de Estado que deu início à ditadura militar no país. Todos os anos, os argentinos rememoram este capítulo triste de sua história com o objetivo de alertar as futuras geraçoes e reivindicar justiça pelos que sofreram no passado.
Daí eu vejo que realmente o Brasil é um país sem memória…

Sentei ao lado da porta de vidro e lia Edgar Alan Poe quando, pela primeira vez em 18 dias, vi o chão sendo demarcado por gotas de chuva. No início, eram tão esparsas que pensei que pudessem vir da varanda de cima, mas sorri de qualquer forma.
Voltava ao Poe e, vez ou outra, olhava para fora procurando as marcas d’água. Até que a chuva resolver se largar de vez e eu piscava devagar, gostando. Eu moro da terra da chuva – outrora, da garoa – e sentia falta desse cheiro, do vento gelado, da umidade, do chão molhado. cae el agua, a goterones lentos, (…) estoy mirando, oyendo, con la mitad del alma en el mar y la mitad del alma en la tierra, y con las dos mitades del alma miro el mundo*.

Depois, eu e alguns roomies fomos alugar um filme. Sex and the City. E por mais que não seja art noveau, indie, ou leve qualquer um desses nomes cults para a sétima arte, há muito significado para mim. Para nós. Antes de tudo a série/filme fala de uma longa amizade e eu sou uma pessoa privilegiada o suficiente para tê-la. E uma das minhas grandes amigas faz aniversário hoje. Liguei para ela, claro, porque amigos tem que estar presentes, no matter the distance.

A encontrei como sempre: fabulous. Agora, twenty-five and fabulous. E, certamente, daqui a vinte e cinco anos, poderemos repetir umas às outras o mesmo adjetivo.
You’re really fabulous, my friend. Thanks for being just what you are.

*NERUDA, Pablo.

Tags: ,

Todos os dias sao ensolarados, as nuvens sao diáfanas e claras. Ainda nao vi chuva nem dias nublados. E metaforicamente, tudo isso também é verdade.
Até que sábado, começaram as “moléstias”, ou melhor a moléstia. Pipocaram manchas vermelhas que coçam absurdamente. A princípio, quando eram poucas, achei que pudessem ser picadas de mosquito, mas elas se mulplicaram demasiadamente e, a menos que estivesse passados alguns dias na floresta, percebi que poderia ser outra coisa.
Fui ao hospital – muchas gracias, Santander, por darme el seguro saúde – e descobri era alergia por algo que comi.

Na noite anterior, havia comido pizza na pizzaria “Ayrton”. Sim, o Senna. Há fotos dele espalhadas por todo o lugar. Acho que deve ter sido o presunto, nunca como presunto.

O que importa é que agora as manchas estao ficando mais claras e coçando consideravelmente menos. Ainda estou perebenta, mas com uma qualidade de vida melhor, rsrs.

Pelo menos escapei da gripe que lastimou alguns dos moradores da casa…Perebinha é melhor que isso.

A pensão estava repleta de brasileiros – muitos da USP – que estiveram em Córdoba para um curso de férias. Foram embora no dia que cheguei e aos poucos foram chegando os demais, que ficarão para o semestre. Minhas companheiras de quarto são as duas únicas mexicanas da casa e é uma vantagem dividir quarto com hispanoablantes.

No dia seguinte, fomos à recepção aos alunos extrangeiros. A coordenadora falou sobre a experiencia de viver em outro país, destacando o fato que não só conheceremos melhor o outro, mas também a nós mesmos. Concordei. E talvez resida aí – ainda que inconscientemente – o maior dos medos: conhecer e lidar consigo mesmo sem ter ao redor as pessoas que mais que nos conhecem e melhor sabem lidar conosco.

Na noite de sábado, fomos ao “boliche”. Quando comecei a pesquisar sobre a cidade de Córdoba, ainda no Brasil, vi que era um costume os universitários irem ao boliche. Não entendi bem o que tinha de tão interessante passar a madrugada jogando boliche…Quando cheguei aqui, a confusão linguística se desfez: boliche é balada. Agora sim, falamos a mesma língua.

Muito reggaeton e ritmos latinos. Perfecto!

Antes da viagem, estive muito preocupada com tudo que poderia acontecer, principalmente com o estranhamento do extrangeiro. A sensação de não estar em casa, da cama diferente, da manhã mais difícil que as manhãs familiares.
E então o avião cruzou a fronteira e só o que senti foi entusiasmo. Cheguei ao Uruguai e fiquei ansiosa para chegar logo a Argentina.
O avião aterrissou em um dia bonito na cidade de Córdoba, ao que os passageiros – inesperadamente – aplaudiram, o que achei engraçado.
No caminho do aeroporto até a pensão, fiquei esperando a adrenalina e a palidez de enfrentar o estranho. Não veio. Foi tudo absolutamente normal.
Depois de tomar um longo banho comecei, sem sobressaltos, minha vida em Córdoba.

Tags:

extranjero, ra.

(Del fr. ant. estrangier).
1. adj. Que es o viene de país de otra soberanía.
2. adj. Natural de una nación con respecto a los naturales de cualquier otra. U. m. c. s.
3. m. Toda nación que no es la propia. EL extranjero.

Calendário

junho 2017
S T Q Q S S D
« set    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930